Cariri

A RIQUEZA DOS VERSOS NO CARIRI

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Há 25 anos, a Academia dos Cordelistas do Crato relata a beleza do cotidiano através dos versos e da cultura regional

Como diria Luiz Gonzaga, no “Cratinho de açúcar, coração do cariri” existe uma arte tão doce quanto o mel dos antigos engenhos e tão resistente quanto a rapadura: A arte do cordel. Aqui, existe a “morada da poesia”, um verdadeiro reinado de letras, rimas, poetas e tradição.

A organização existe desde primeiro de janeiro de 1991, sendo idealizada por Elói Teles de Morais. Seu Elói, como era conhecido, foi um radialista e cordelista querido pelos cratenses e faleceu em outubro do ano 2000 e deixou um legado cultural extenso para a região do Cariri.

Nesses vinte e cinco anos de cultura popular, a Academia dobrou o número de integrantes. Em 1991, eram apenas 12 e hoje somam em 24, sendo 21 deles poetas e os outros três o xilógravo, o tipógrafo e o apologista. Anilda Figueiredo, cordelista e atual presidente da Academia, integra a organização cultural há 14 anos. Ela foi convidada a ocupar a cadeira que pertenceu a Seu Elói até o ano de seu falecimento, fato que ela ressalta com muita honra e gratidão.

Anilda, antes de ser membro da academia, trabalhava no Banco do Brasil e já conhecia seu Elói, que sempre fazia questão de ser atendido pela cordelista para realizar as transações bancárias. Na ocasião do atendimento, os dois poetas aproveitavam e sempre trocavam ideias sobre versos e temas de cordéis. Vez por outra, ela conta que estava ouvindo o programa do amigo pela Rádio Educadora e percebia que ele havia colhido os versos dela para recitar no seu programa.

Apesar do nome da academia passar a impressão de ter que pertencer ao Crato para ser um membro, a instituição não se limita a esse fator geográfico e o que comprova isso é o fato de boa parte dos poetas serem naturais de outras localidades.

A Academia é regida por um Estatuto e o membro da instituição precisa seguir algumas normas para o melhor funcionamento e organização. As reuniões são mensais ou bimestrais, dependendo da demanda exigida e cada cordelista tem o compromisso de produzir pelo menos um cordel anualmente para somar ao acervo da organização.

A única Academia de cordelistas que ainda utiliza a máquina tipográfica é a do Crato. A produção é feita letra por letra, cuidadosamente. O cordel feito nesses moldes é mais caro e bem mais trabalhoso, mas o que importa aos integrantes é manter a tradição de todo o processo criativo. Atualmente, os cordéis tem sido impressos em gráficas convencionais, pois o tipógrafo está afastado das atividades por problemas de saúde. Apesar de terem recorrido a essa alternativa, a cordelista ressalta: “É só por enquanto: Vamos voltar!” – diz referindo-se ao uso da máquina de tipografia.

É inquestionável a luta constante das mulheres para desmistificar a ideia de que os homens devem predominar nos ambientes profissionais e artísticos. No Brasil, apenas em 1827 a legislação passa a contemplar a abertura de escolas públicas femininas. Antes disso, poucas mulheres publicaram alguma produção. No ano de fundação da Academia dos Cordelistas de Crato, dos doze membros, constavam apenas duas mulheres. Passados vinte quatro anos, verifica-se a presença de nove poetisas na associação.

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O cordelista é conhecido também como “poeta de bancada”, pois, como define Anilda Figueiredo, ele senta, pensa e escreve, diferentemente do repentista que produz valendo-se do improviso. Para fazer parte da organização, não é necessário apenas escrever bem e dentro da métrica: É preciso que haja uma cadeira disponível na academia e, ainda assim, é realizada uma avaliação criteriosa, sendo primordial a aprovação unânime do corpo de poetas para que o candidato possa adentrar como um integrante.

Além de atingir essa aprovação, o candidato passa ainda por uma avaliação de idoneidade, pois, para ingressar na Academia, deve-se deixar de lado qualquer teor partidário, religioso e qualquer finalidade de promoção pessoa, valendo-se do título de cordelista para se engrandecer. “Não pode ser “confuseiro, que escreve cordel para político. Isso aí não pode porque o nosso cordel não deve a ninguém: Não deve a político nem a religião! Você pode ocupar aqui uma cadeira e não importa de onde você vem, a sua orientação… o que você quiser: branco, negro, rico, pobre, não importa!” – sintetiza a presidente da instituição.

Anilda deixa claro que é necessário um espírito de cooperação e engajamento, estando sujeito ao descredenciamento aquele que porventura não cumprir com as obrigações mínimas de comparecer às reuniões, produzir o cordel anual e contribuir com a taxa de manutenção.

Com o advento da tecnologia, os cordelistas também se reinventam e realizam até pelejas pela internet, que é uma das modalidades do cordel e existe também na cantoria. No começo, eles parecem estar se digladiando e, ao final, os poetas se reconciliam, sempre complementando os versos um do outro. Anilda, inclusive, aborda o tema em suas produções:

“Esse tal de WhatsApp foi uma invenção do cão

Mulher fala de marido, de ciúme e traição

Eu falo isso por mim

Por causa desse bichim

Já queimei muito feijão”

 

Por: Renata Linard
Fotos: Jucelino Pereira

 

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