Cariri Revista Charm Saúde

A saúde mental das mulheres negras: “amor por nós mesmas”

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Através do ato de ouvir, Karla Alves tece teias de amor. É preciso falar sobre o os efeitos do racismo na saúde mental da população negra, em especial, das mulheres negras na região do Cariri.

a8d1fd24-5def-44b1-9119-4e0f8627ec74“Como você está se sentindo?”, perguntou e militante do coletivo Pretas Simoa, Karla Alves, na ação “Preta, conte uma história de amor” para mulheres negras. Depois de ouvir histórias, que segundo ela, rimavam com dor, questionou quantas vezes elas tinham escutado esse tipo de pergunta e muitas disseram que nunca, outras nem conseguiram responder. “Choramos juntas. Percebi ali que havia uma dolorosa conexão entre todas as que haviam partilhado comigo sua história. A dor foi o alicerce de suas histórias”, conta.
Segundo Maria Lúcia da Silva, psicóloga, psicoterapeuta e ativista do Movimento Negro e do Movimento de Mulheres Negras, “é possível dizer que, no país, uma grande maioria de brasileiros, em que se inclui um enorme contingente de negros, vive em constante sofrimento mental, devido às precárias condições de subsistência e à falta de perspectivas futuras”. Karla explica que “essa vivência vem no sentindo de amenizar a dor pelas feridas abertas causadas pelo racismo e o preconceito de gênero”
Para Karla, um dos maiores problemas enfrentados é a autonegação. “É olhar no espelho e ver qualquer outra coisa que não seja você. Na mulher negra, a primeira efetivação vem dos traços, como por exemplo o cabelo. Nossas mães nos convencem de que vamos ser mais aceitas com o cabelo liso, mas no fundo, todas nós acabamos aceitando isso e acreditando que seremos mais bonitas. Comigo foi assim, até que com 19 anos eu parei de alisar e passei pelo período de transição”
A ideia da ação social de Karla parte de ouvir as mulheres. “Lembrei das histórias dolorosas dos relacionamentos que tive e das minhas amigas negras. E como era difícil para nós, mulheres negras, falarmos de nós mesmas… E pior, como eram raras as nossas histórias de amor com episódios felizes…. Daí surgiu a ideia de vivenciar essa experiência com as Pretas (se refere ao coletivo) ”, diz.
“No caso da mulher negra, há a questão do gênero relacionado a raça, o caso sempre de sermos preteridas e não preferidas. Vadias ou mulheres quentes. Eleita para ser a puta, a rainha na cama, mas nunca sempre apresentada como esposa. Essa diferença causa anulação muito maior, muitas vezes, a cicatriz não fecha. Outras mulheres não sabem o que é essa carga histórica nos ombros”, explica a militante.
Após o encontro, Karla conta que sentiu uma superação em cada uma que parou para contar suas dores. “Mas também percebi a superação em cada uma, a esperança que ainda respirava. Essa sim é uma linda história de amor, do amor que resiste o amor por nós mesmas”, diz. Para ela, essas mulheres são heroínas do dia a dia, heroínas de si. “Sou mais forte graças a elas”, finaliza.

Ribamar Junior

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