Saúde

A vida é um anzol

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Na véspera do seu aniversário de 105 anos, Odilon Bezerra é um homem sadio e de memória lúcida. Ele esperou armado, a chegada de Lampião, ia à casa do Padre Cícero e almoçava com Pedro Felício Cavalcante. Para ele, a receita de uma longa vida é só uma: não abusar das coisas

Texto Ribamar Júnior Foto Márcio Costa

A canoa do Seu Odilon virou no meio do açude Castanhão, em Jaguaribe, há três anos. Ele havia saído de casa cedo com piabas no pote, para usar com isca, e ciente da meta de trazer no isopor um bom pescado. No susto, ele passou quase uma hora esperando ser resgatado por alguém agarrado a uma jurema velha seca, até que um rapaz viu a situação e resolveu acudir Odilon. Havia uma enfieira amarrada na perna dele com cinco peixes Tucunarés dentro d’água nadando para baixo, o que exigiu ainda mais força nas mãos para segurar os galhos da planta. “Foi agora, há pouco tempo isso, eu tinha 102 anos. Sofri um pouco”, brinca e completa a história. No mesmo dia ele sentou na beira do açude e ainda consegui encher o isopor.

Odilon Bezerra de Morais nasceu em Caririaçu, casou em 1936 e veio para Juazeiro do Norte em 1951. Conseguiu estabilidade quando começou a trabalhar com uma serraria. O ofício durou 14 anos até que comprou uma propriedade nas malvas e passou a trabalhar com cerâmicas. Foi sócio do filho por muito tempo, que continuou os trabalhos do pai também por muito tempo. Teve 11 filhos, dois faleceram, e hoje são 9, três mulheres e seis homens. É viúvo há cinco anos. “Nunca tive uma coisa definitiva de gostar, trabalhava com muito gosto em tudo e com muita disposição, minha vida com 60 anos e 70 anos ainda era bem enxuto, sou muito sadio”, conta.

Não há um dia em que Odilon não sente na praça de frente a sua casa no bairro Betolândia em Juazeiro. Ele vai para a missa todos os domingos de manhã. Mas nos tempos mais precisos, seu principal hobby era viajar pelos açudes da região. Gostava de caçar e pescar “Todo Sertão de Pernambuco, eu cacei com espingarda, tive um amigo em Cruz de Malta e de lá a gente saía caçando nas matas. Andei na região do Piauí, pela Chapada do Capim, dei umas oito viagens lá, mas muito boas às caçadas”, diz.

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Ele arrisca dizer que agora tá só completando o tempo, mas logo conta o quanto está disposto para viver com vontade e tem muita força para manobrar o anzol. “Gosto demais e tenho vontade de continuar vivendo, as amizades que eu tenho são muito boas, e a família também”. Em 1953, sofreu um acidente automobilístico e fraturou a perna esquerda, se operou duas vezes em Recife e no Rio de Janeiro.

A última vez que andou na casa do Padre Cícero, Dr. Belém e Dr. Delgado estavam lá na mesa de jantar. Foi até o padre para fechar um negócio com as terras do pai em Caririaçu, o sacerdote precisava quitar umas dívidas com médicos. Odilon lembra que naquela época, Padre Cícero ia celebrar a missa no domingo a cavalo e ficava na casa de uma viúva Dona Ceicinha, celebrava domingo dormia e segunda feira viajava de volta para Juazeiro.

Um dia, ao lado de mais seis homens, esperou armado até os dentes a vinda de Lampião a noite inteira, e quando finalmente ouviu uns rastros na entrada da cidade, eram apenas fiéis romeiros dizendo que traziam paz. Era mais um boato sobre a vinda do cangaceiro. Em Crato, costumava almoçar com dois grandes amigos, Pedro Felício Cavalcante e Monsenhor Pedro Rocha. “Pedro Felício sempre deixava um restinho de comida no prato, era pra não abusar”, fala sobre o cuidado com a alimentação que o professor e economista tinha nas refeições.

“Não precisamos abusar de muitas coisas, é preciso cuidado. Não é ter muito zelo e sim reservar a algumas coisas”, finaliza Odilon dando uma receita para a longevidade. No dia 15 de abril completará 105 anos, mas o coração aventureiro se mantém batendo forte. Odilon, ainda com a força de se manter em pé no barco que é a vida, tem força para puxar o anzol e sorrir.

 

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