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ACB- Levando mais saúde às refeições do Cariri

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Saiba como a Associação Cristã de Base dissemina uma produção mais sustentável, levando mais saúde às refeições do Cariri:

Toda sexta-feira, na cidade do Crato, acontece a Feira Agroecológica promovida pela Associação Cristã de Base (ACB). O movimento começa cedinho, por volta de 5:00h da manhã. Apesar do horário, a clientela se mostra fiel e não desperdiça a chance de comprar vegetais mais saudáveis e a um preço bem mais acessível do que os vendidos nos supermercados.

ACB-Crato

A chuva que molha os pés de Maria Ana da Silva, de 63 anos, só fortalece as raízes que ela criou com a terra. A agricultora é um dos membros da ACB e, faça chuva ou faça sol, comparece sempre à Feira com um sorriso no rosto e muita disposição para as vendas.

A atenção dela é disputada, pois na sua barraca, como ela mesma diz, vende de tudo: de hortelã e manjericão até galinha caipira e ovos. Dona Ana mostra amor pelo que faz e mesmo na correria para passar troco, ela tem jogo de cintura. Ao ser perguntada sobre o processo de plantio, a resposta é bem-humorada: “Eu que planto, que limpo, que junto estrumo, que vendo, que gasto o dinheiro… Não, mas pra gastar tem sempre umas ajudinhas”, brinca.

Ela reforça que o grande diferencial dos produtos agroecológicos em relação aos que são encontrados em larga escala é a ausência de produtos químicos. “O gosto dos alimentos é diferente. Os daqui você enche a barriga com saúde. Hoje toda comida que a gente compra, tem veneno. Aí você tá comendo o câncer”, compara.

Ao ser perguntada sobre se ver fazendo outra coisa, ela responde prontamente: “Não! Eu gosto de trabalhar na terra mesmo. Esses dias eu tava falando que eu nunca disse nada com meu pai porque ele não me botou na escola. Há 60 anos, o mundo era bem diferente… O povo mandava ele colocar a gente na escola, mas ele dizia que a nossa caneta era uma enxada. Naquele tempo a gente achava ruim, mas era porque ele era igual a Lampião. Ele não me deu escola, mas me ensinou a trabalhar”, pondera.

O sertão, de fato, tem mulher séria e homem trabalhador. Confirmando o que Luiz Gonzaga dizia, Seu José Pereira também não perde uma Feira sequer. Mais conhecido como Zé do Bode, o feirante irradia satisfação ao levar as mercadorias para vender junto da esposa, Maria Dácia.  O apelido vem do diferencial em vender também carne de bode na barraca. Membro da Associação há 6 anos, Seu José conta que conheceu a ACB porque no sítio onde ele produz, as bananas estavam se perdendo pela grande quantidade, então ele levou a mercadoria para a feirinha.  Com a assiduidade no local, os coordenadores da Associação passaram a orienta-lo nos moldes da produção agroecológica e hoje ele também é membro da instituição.

ACB-Crato

 

Socorro Jamacaru é uma cliente fiel. No meio da chuva, ela já estava na feira e se mostrava ansiosa pela chegada dos feirantes. “Compro de tudo! Prefiro os alimentos daqui porque são mais baratos e melhores”, conclui.

SOCORRO JAMACARU

A Associação funciona desde 1982 e atua em alguns municípios da região do Cariri. A abrangência é variável, a depender da demanda. Hoje, a instituição atende cerca de 16 cidades. A assistência prestada aos agricultores vai desde o processo organizativo até a produção. Num primeiro momento, a prioridade foi acompanhar as pequenas associações comunitárias já existentes e incentivar a formação dos sindicatos.

Maria Socorro da Silva, coordenadora geral da ACB, ressalta que, na parte produtiva, os agricultores tiveram a oportunidade de conhecer outras maneiras de lidar com a terra a fim de tornar o plantio mais produtivo e mais ecológico. “A gente foi vendo que não era só a parte de organização que precisava ser trabalhada, tinha também a questão produtiva porque eles vinham de uma cultura de queimar (a terra), de usar agrotóxico, de pagar renda alta, de achar que só uma roça bem grande valeria a pena… sabe? Então percebemos que era necessário trabalhar também essa questão da agricultura”, explica.

SEU Z� DO BODE

Diante da necessidade de instruir os agricultores, a ACB procurou outras instituições para compreender os moldes da agroecologia. A organização não governamental Esplar, localizada em Fortaleza e o agricultor Ernst Götsch, considerado o pai da agroecologia da Bahia, são exemplos dos primeiros apoiadores da instituição. Assim, a Associação adere ao modo de produção agroecológico e passa a disseminar aos agricultores os conceitos fundamentais como o não uso de agrotóxicos, a eliminação de queimadas no solo e o prejuízo da monocultura para a fertilidade da terra.

A coordenadora acredita que a agroecologia praticada pela ACB é o primeiro passo para que o Cariri possa desenvolver a agricultura orgânica. “Para nós, a agroecologia é um caminho para se chegar a agricultura orgânica porque daqui que a nossa região tenha uma produção orgânica, vai levar um bom tempo. Nós estamos com nossas terras encharcadas de agrotóxicos e a agricultura só é considerada realmente orgânica quando o solo está livre de qualquer resíduo químico”, esclarece.

Os agricultores da ACB não possuem grandes extensões de terra. A maioria mede o equivalente a duas ou três tarefas (uma tarefa corresponde a 55mx55m). Se não praticassem a agroecologia, muitos teriam, inclusive, que alugar um espaço maior para produzir. Os associados são incentivados a praticar o “consórcio” de terras. O termo é usado para se referir à eliminação da monocultura, que é o cultivo em larga escala de um único alimento. A produção de hortaliças, por exemplo, saiu destes moldes e hoje, numa pequena área, são cultivados pés de alface, hortelã, tomate-cereja, cebolinha e outros vegetais. Esse dinamismo previne a esterilidade do solo, além de contribuir para a diversidade da produção.

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Maria Socorro explica que a renda gerada com a agroecologia abastece o agricultor e sua família para que tenham o suficiente. “Encher os bolsos de dinheiro não vão, mas o necessário para viver e ter saúde eles têm”, pontua.

Os associados cultivam o próprio alimento nas hortas e o excedente da produção é levado para as Feiras Agroecológicas, que acontecem em Crato, onde fica a sede da ACB, em Nova Olinda, em Santana do Cariri e em Milagres.

Hoje a associação mantém o projeto de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Pais), que recebe patrocínio da Petrobrás. Segundo o técnico de campo, Ery Claudio Alves, o sistema propõe a utilização de um pequeno espaço para uma produção animal e vegetal.  A integração inclui a produção de hortaliças, frutíferas e de pequenos animais, como as galinhas.

A estrutura do sistema é disposta de modo a promover a rotatividade da terra cultivada de forma a garantir alimentação e espaço para a criação de animais. O Pais é composto por um galinheiro que fica rodeado de hortaliças. No local, as galinhas passam somente o período da noite. No restante do dia, elas são conduzidas por uma espécie de corredor para uma área de terra dividida em duas partes, onde elas oscilam a ocupação. As frutíferas se localizam próximo a cisterna, chamada de Chapéu de Padre Cícero, desenvolvida pela ACB e reconhecida pela Fundação Banco do Brasil, que premia as melhores tecnologias sociais. O mecanismo da cisterna Chapéu de Padre Cícero difere das demais por conta do calçadão ser disposto em volta da cisterna, ao contrário das outras. O calçadão é uma estrutura que apresenta em torno de 200m e tem a finalidade de captar a água das chuvas. Geralmente é construído separado.  A capacidade de armazenamento corresponde a 52 mil litros de água. O sistema apresenta ainda uma caixa d’água de cinco mil litros que proporciona o sistema de gotejamento. Esse tipo de irrigação é mais sustentável que os demais.

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A proposta é mobilizar a comunidade rural de forma diversificada. A ACB tem estimulado também a formação de grupos de mulheres, numa quantidade de 8 a 12, para manter o sistema Pais e promover a integração de gênero nas atividades. Desde a década de 90, a instituição orienta as mulheres a participarem ativamente das atividades agrícolas para que elas se sintam estimuladas a conquistar a própria independência.

 

Fotos: Facebook -ACB
Por: Renata Linard

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