Cariri Cinema

Clarisse é uma ferida aberta

clarisse

Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós está em cartaz na sala 5 do Cariri Garden Shopping. Chegado ao circuito comercial da região do Cariri, o filme foi exibido em dez países e ganhou diversos prêmios. Petrus Cariry faz o espectador abrir os ouvidos para sentir as cenas e os olhos para o cinema alternativo

Texto Ribamar Junior

Petrus faz cinema há 15 anos. Seu primeiro filme como diretor foi “A Ordem dos Penitentes”, um documentário filmado em 2002. Filho do cineasta Rosemberg Cariry, Petrus, 39, no começo achava complicado pois seu pai já tinha carreira e não havia como escapar de comparações, mas ele conta que só não começou a fazer cinema mais cedo porque existia uma sombra muito grande. Embora o pai tivesse uma filmografia consolidada pelas narrativas nordestinas, ele havia terminado de produzir Corisco e Dada (1996) e o filme estava participando de festivais internacionais.

“O medo era grande, tanto que antes eu tinha uma banda de rock, queria fazer uma coisa completamente diferente para fugir um pouco disso. Mas teve uma hora que eu vi que o que tinha de fazer era isso mesmo (entrar no cinema) e eu resolvi encarar. No começo é complicado, até você se afirmar. Aí os curtas foram acontecendo. Eles possuíam, também, uma temática de sertão, mas com uma visão tão diferente, inclusive em termos de referência, pois tinha (Andrei) Tarkovsky, (Abbas) Kiarostami, enfim, era outra visão de cinema. Ao mesmo tempo, a gente tem a segurança de trabalhar junto hoje em dia”, explica Petrus.

CLARISSE 2

Segundo o diretor, o trabalho de construção do filme Clarisse e da personagem, interpretada por Sabrina Greve, foi muito intenso, com muitas dúvidas e abismos para se atravessar. “Foi um prazer imenso fazer esse filme com ela, agradeço demais a confiança e a entrega”, conta ele sobre a escolha da atriz. Em cena, Clarisse é uma ferida aberta, com olhar atordoado e cansado, a personagem faz da mágoa um passarinho morto e encontra na fantasia, uma maneira de traçar um caminho visceral para dissipar sentimentos.

Petrus Cariry diz que todos os filmes que produz é feito para exibições em tela de cinema, embora muitas vezes a produção independente de cinema não faça o circuito comercial e seja exibida em sessões alternativas. “Acho que a primeira janela de exibição de um filme sempre será a tela grande, lógico que depois o filme vai migrar para outras mídias, para flexibilizar o acesso, mas a exibição no cinema para mim é uma especie de caverna de Platão”. Sobre o filme e cinema independente, ele fala para a CHARM:

CHARM: Clarisse segue uma trilogia, mas ouvi dizer que para você isso não importa muito nas narrativas. Como você percebe essa interação entre os filmes?

Petrus: Na verdade os filmes podem ser vistos sem ordem definida, apesar do tema morte perpassar os filmes, as abordagens são bem distintas. Em O Grão, temos uma criança que alimenta a avó para que ela não morra antes de lhe contar uma história, e essa história encerra um ensinamento sobre a morte e a condição humana. Uma mensagem que ajudará aquele menino a se tornar um homem. Mãe e Filha é um conflito entre gerações em torno de um bebê natimorto. A mãe do bebê quer enterrar a criança, a avó quer prolongar esse enterro. A avó vê nesse bebê o herdeiro que trará a vida de volta a uma cidade que está em ruínas. Em Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, temos a luta de uma mulher, com os seus fantasmas e medos, na fronteira do real e do sonho, para reencontrar a vida. A morte e o sangue são signos de renovação, um possível recomeço

CHARM: Durante o filme eu percebi que os sons se referem muito aos sentimentos da personagem. Qual a intenção em enfatizar isso no filme?

Petrus: Fiz várias experiências na mixagem e edição de som de Clarisse, em conjunto com Érico Paiva (Sapão), em busca de contar uma história através dos sons e ruídos. A questão do silêncio do filme foi uma descoberta do próprio processo de roteirização, filmagem e finalização. Um processo bem rico de descobertas, eu tinha ambição de narrar o filme e informar sobre o estado emocional de Clarisse através da banda sonora

CHARM: Como é fazer cinema alternativo no Brasil hoje?

Petrus: Acredito que vivemos um momento  interessante para o cinema independente, por conta dos investimentos feitos principalmente pela ANCINE,  que faz os filmes de diretores mais alternativos saírem do papel. O cinema alternativo fica à margem, mas já está ganhando reconhecimento em festivais lá fora e com boas críticas. Aos poucos ele está alcançando o público, que tem a chance de conhecer um outro tipo de cinema

CHARM: Há algum outro trabalho em mente? 

Petrus: Estou em processo de montagem de um filme chamado O Barco, filmado na Praia das fontes, Ceará. O filme conta a estória de uma pequena família de pescadores lideradas por Esmerina e Pedro. Esmerina tem 26 filhos, o nome de cada um dos filhos correspondem a uma letra do alfabeto. O filho mais velho“Letra A” (Rômulo Braga) deseja conhecer o mundo e fugir daquela comunidade. A mãe Esmerina decifra o futuro lendo os filhos, a partir da chegada de um misterioso barco e de uma mulher (Ana) que sobrevive a um naufrágio e chegapelo mar. O destino dessa família será drasticamente alterado. O filme será um drama com tintas do cinema fantástico, acho que deve manter alguns elementos deClarisse…, porém será um filme mais solar. O elenco principal é composto por Everaldo Pontes, Rômulo Braga, Veronica Cavalcanti, Nanego Lira e Samia de Lavor.

Deixe um comentário

Powered by keepvid themefull earn money