Cariri Sociedade

Juntas no front, e na retaguarda também

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“Uma vez por ano um homem apanha flores, a cada cinco minutos uma mulher apanha” (Germana Zanettini)

Texto Ribamar Junior Foto Sauanny Lima 

Pelas greves na Polônia, Coréia do Sul e Irlanda em defesa dos direitos reprodutivos às lutas das indianas contra a cultura do estupro. O dia 8 de março foi marcado em Crato com ato unificado às 9h com concentração na Prefeitura Municipal . No lema “Greve Internacional das Mulheres: Se nossa vida não importa, que trabalhem sem nós”, mulheres de coletivos, sindicatos, entidades e movimentos sociais e a batucada feminina do Maracatu Uinu Erê, se somaram à luta mundial pelas vidas delas.

Com faixas, cartazes e gritos de resistência contra a violência de gênero,  à informalização do trabalho, às desigualdades salariais e à homofobia, transfobia e xenofobia o ato prosseguiu pelas ruas do centro da cidade. De acordo com a estudante e militante feminista da Frente de Mulheres, Pâmela Queiroz, o ato não foi em comemoração ao Dia Internacional da Mulher. Guiada pelo mantra da Rosa Luxemburgo, de que nós precisamos de um lugar no mundo em que “sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”, ela explica que o movimento de mulheres retrata isso bem. “Lembramos do caminho que ainda temos que percorrer para chegar a igualdade de gênero”, diz.

Pâmela fala que esse oito de março foi mais especial por abraçar as lutas no mundo todo e pautar com ênfase a Reforma da Previdência. “Vivemos um delicado retrocesso nos direitos das mulheres e da aposentaria também. Agora, nós mulheres, vamos ter que nos aposentar aos 65 anos. Essa reforma desconsidera que vivemos em uma estrutura patriarcal que nos sobrecarrega. Muitas mulheres possuem tripla jornada de trabalho e passam por um processo de esgotamento absurdo”. Além disso, ela enfatiza sobre o caso das mulheres que são empregadas domésticas, que até pouco tempo, não tinham sequer o direito de serem registradas.

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Pâmela no ato

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Embora nos últimos anos o avanço da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) tenha sido notável, os números ainda hoje assustam. Segundo o Mapa da Violência contra a Mulher de 2015, 50,3% dos homicídios de mulheres no Brasil são cometidos por familiares. O Mapa ainda apresenta o Ceará no oitavo lugar do ranking de violência.  No ano passado, o Observatório de Violência e Direitos Humanos na Universidade Regional do Cariri (URCA) juntamente a Delegacia de Defesa da Mulher, registraram que a cidade de Crato lidera casos desse tipo de violência na região do Cariri.

A partir dos dados apresentados, dos 1.372 casos notificados na região, o Crato lidera com 9,16 para cada mil mulheres. Em seguida, está Juazeiro do Norte com 5,87 casos e a cidade de Barbalha com 0,49. Maria Clara Rocha, estudante do quinto período de Direito da URCA, conta que a importância dos movimentos sociais para a luta de mulheres é afetiva. “Em primeira impressão falo diante da perspectiva pessoal de militante, de mulher que enfrenta dificuldades no ambiente familiar, profissional e social só pelo fato de ser mulher. E estar envolvida com alguns movimentos sociais da região do Cariri e em outras parcerias acolhe meu ser de forma sensível e sendo assim, provoca, portanto, em relação à coisa designada, um juízo, um estado de espírito, uma dimensão de confiança e afetividade entre mim e as outras mulheres”, diz.

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Maria Clara e as parceiras no movimento Piquenique Feminista

Para a integrante do Piquenique Feminista, a militância é plural e varia de acordo com as as vivências, as culturas e os modos das falantes e ouvintes, também, acredita que muito deve ser reformado no ordenamento jurídico brasileiro, tendo em vista que a construção histórica e atual das leis brasileiras foi feita majoritariamente por homens e não representa a voz feminina e seus direitos e garantias fundamentais. “No momento em que o ensino jurídico reproduz esse padrão, retarda a evolução do direito brasileiro. Quando um movimento social com foco na luta das mulheres, ocupa o espaço ideológico em favor da defesa da mulher contra as várias formas de violência de gênero/sexo/sexualidade que era pra ser responsabilidade do Estado, assume uma atribuição política necessária para a democracia brasileira”, pontua.

Maria Clara termina dizendo que os movimentos sociais e seus atos são, assim, uma forma de apoio de mulheres para mulheres (e pessoas que se identificam com o gênero feminino), sendo uma ferramenta política. Pâmela cita também o caso da travesti Dandara dos Santos, assassinada brutalmente no mês passado apenas por ser o que era, uma travesti. “Hoje também foi dia de gritar: Dandara PRESENTE!”.

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