Cariri

“O grito político está na música”

20883462_1380783732039366_1839261416_o

Ano que vem a Banda Uó faz oito anos de estrada. Saindo dos grandes centros urbanos e cruzando o interior do país, o grupo fez o Espaço Privilége em Crato se transformar em uma sauna escura, com vapor e calor. Para eles, fazer política não é difícil, muito menos sacudir os ombros e fazer uó

Texto Ribamar Moreira Foto João Rodrigues Colaboração Pâmela Queiroz e Pedro Phillipe

“Conduza a oração para a gente”, diz Davi Sabbag antes de começar a entrevista sentado no sofá do camarim do Espaço Privilége, em Crato, ao lado da Candy Mel e do Mateus Carrilho. De pernas cruzadas e tênis all star, Davi conta que queria fazer turnê em todos os lugares, pegar um ônibus e rodar o Ceará inteiro. “Será que vai dar certo a gente fazer isso?”, brinca Mel de óculos escuros e calça floral. Pela primeira vez na região do Cariri, a Banda Uó se apresentou no último sábado, 12, em comemoração a um ano do Empório Bar e Galeria e transformou o espaço em uma sauna escura, com vapor e calor.

Mateus Carrilho considera uma felicidade chegar na cidade e ser bem recebido. “As pessoas receberam a gente no aeroporto com muito carinho, quando você vai pra lugares diferentes e vê que música chegou lá, é gratificante”, diz ele. Para Mel, cruzar interiores é fantástico, a sensação é de que o trabalho está se expandido e repercutindo. Atualmente o grupo goianense está fechando um ciclo com o CD Veneno, lançado há dois anos. Já tem algo novo sendo preparado, a canção Sauna foi a despedida do último disco, e agora, estão se preparando para uma “nova fase, nova banda, nova era”. Por ora, Mel inverte os papeis e questiona, entre as perguntas, o que o jornalista espera do novo disco. Mateus retruca, “a fase Malibu chega para todas”.

“Pode ser que não seja o que você está pensando”, blefa Davi. Que a era country chega para todas, o chapéu rosa da Lady Gaga ou a língua para dentro da boca da Miley Cyrus  não nega, mas o que a Banda Uó quer nesse momento é ser sincera consigo mesma e com o público. “Estamos em uma fase de entendimento pessoal, o trabalho daqui pra frente vai ser mais do que nunca uma realização pessoal, vamos fazer pra nos sentir bem, feliz”, pontua Mateus.

20930783_1380783718706034_300622591_o

Apesar das atrações anteriores ao grupo na noite do show serem discotecagens de drag queens e DJs que tocam músicas mainstream consideradas da cultura LGBTT, a banda não trabalha no intuito de se sobressair ou criar nicho voltado exclusivamente para esse público. Ao pegar o microfone e cantar, a Banda Uó quer trazer visibilidade e equidade. “O trabalho que fazemos é para que isso não aconteça, que tenha esse tipo de barreira, a luta LGBT não é só LGBT, é humana. A gente está lutando pelos nossos direitos, divulgando nosso trabalho e estamos querendo uma equivalência das coisas, não se sobressair ou criar nicho. Estamos buscando o lugar de visibilidade que é igual o das outras pessoas que não são LGBTs”, destaca Candy Mel.

Nem por isso acreditam que as produções precisam estar comprometidas em alguma proporção política. “Sempre estão”, conclui Mel. “Mas não precisam”, rebate Davi. “Acho que tudo é política. A cor da sua roupa é política. A gente sempre falou do que acredita, do que gosta e tudo isso vem junto, na nossa cor, na nossa expressão. O grito político está na música. A partir do momento que somos pessoas LGBTs na frente de um público grande, que está sendo divulgado, a minha vivência é um ato político, estar de frente para várias pessoas cis, sendo trans, é um ato político, então está tudo incluso, não é que a gente veja isso de nada como se fosse dificuldade fazer algo político, mas tudo é político, é fácil, beber água de três em três horas é um ato político, tentando desenvolver organismo”, explica a cantora.

O grupo não encara como um problema lidar com um público diverso, até porque a resposta do público independente da banda. “Claro que tem trabalho de divulgação, criação e público alvo, mas não que seja pensado para determinado público, a nossa vivência, o que a gente é enquanto ser humano, enquanto criação de personalidade e tudo. Não acho que a Banda Uó só venda para LGBT, até porque a gente tinha mania de falar sobre a cultura gay, mas por exemplo, eu não sou gay, sou uma mulher heterossexual, e é isso, a gente consegue atingir sim. Nada melhor do que a resposta de troca e acesso”, diz a vocalista.

Candy Mel

Candy Mel

Quando perguntada sobre a sensação de ser corpo trans no palco, Mel não pensa duas vezes. “Olha essa pergunta já me foi feita algumas vezes e eu não sei responder ela de fato, e o que eu digo, é que eu não ter outro corpo, esse é o corpo que eu tenho”. A cantora conta que é uma mulher trans e por isso, não sabe como é ser uma pessoa cis. O que ela produz como artista carrega sua transsexualidade, logo, nada mais justo do que expressar sua arte do jeito que é. “Claro que ela vem com toda minha vivência, estrutura psicológica, criação, e acho isso fantástico, as pessoas estão aproveitando, sabendo ver isso. Cada vez mais me sinto mais grata pelo público, pelas pessoas que acompanham, pela naturalização da vivência dessas pessoas trans no trabalho”. Para Mel, é importante aproximar pessoas trans dos acessos. “Eu, enquanto artista, me sinto uma pessoa potente e é isso que eu quero levar”.

Às vezes a Banda Uó quer criar algo com viés político, outras vezes apenas fazer as pessoas se divertirem. Uma coisa não anula a outra, mas por ser uma banda com uma trans e dois gays acaba batendo de frente. Fazer barulho, ir e voltar para os lugares e continuar fazendo planos está no caderno de metas da banda. “A partir do momento que a gente faz, produz algo, entrega, isso vai da interpretação delas, aí já não é nosso, é delas. A gente vai continuar fazendo o que a gente faz”, diz Mel.

Davi fala que está ficando velho. Na noite do show, ele fez 28 anos, sendo recepcionado pelo público que cantou os parabéns após um dos hits. Mel põe o cabelo atrás da orelha, arruma o cachecol e brinca dizendo que já está no olho do furacão. Mateus continua e fala que a boa nova é começar a pensar na carreira e nas escolhas, envelhecer com dignidade. “Muito dignos”, termina Mel enquanto a responsável por organizar o camarim encara o gravador da entrevista, tira o telefone do bolso e timidamente pede uma foto com a banda. Mel pode até não saber, mas ela é o próprio furacão.

 

Deixe um comentário

Powered by keepvid themefull earn money