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Por Juazeiro, por ele

GILMAR BENDER - Capa

O empresário Gilmar Bender escreveu a história da industrialização e de segmentos de desenvolvimento econômico em Juazeiro do Norte com esforço e trabalho. Empreendedor, pai e devoto, ele explica como largou tudo no sul e veio apostar no Cariri.

GILMAR BENDER 2O retrato é de um homem do sorriso largo. De uma reunião para outra, ele com gentileza abre mão de uns minutos para contar como chegou até poltrona que está sentado hoje. Muitos sabem que Gilmar Luiz Bender, 49, é um empresário bem-sucedido da região, mas poucos conhecem o rapaz gaúcho, que saiu do Sul para desbravar as terras romeiras do Padre Cícero, seu ponto de fé.
Há 30 anos em Juazeiro do Norte, Gilmar hoje é referência no setor calçadista no mercado nacional, porém nem sempre foi assim. Esforço é uma principais palavras que preenche a vida do empresário nascido em Porto Lucena, no Rio Grande do Sul, na divisa entre o Brasil e a Argentina.Sem lenço e sem documento, ele andava 10km de casa para estudar até a quarta série em tempo integral. “Não tinha transporte, nem uma bicicleta, então funcionava na pernada mesmo, a pé”, diz ele. Depois o caminho ficou mais longo e para completar o ensino médio, ele morou em um pensionato com outros estudantes, a 80km de casa. A família decidiu que ele deveria ser padre e o mandou para um seminário. De dia, era agricultor e de noite estudante. “Lá aprendi a plantar, colher, lavar roupa e conviver em grupo”, explica. Passou pelo exército e fez parte do Pelotão de Operações Especiais, mas seu desejo era cursar engenharia.
Prestou vestibular, mas seus pais não tinham dinheiro para custear a faculdade. Até que surgiu uma oportunidade para fazer um curso técnico de Mecânica de Máquinas e Equipamentos com foco em calçados e componentes. Após formado foi trabalhar em uma indústria direcionada pelo curso e logo começou a fazer instalações de máquinas país afora. Foi crescendo, viajando e conhecendo lugares, mas foi em um voo para Recife, que encontrou na poltrona do lado uma revista cuja capa era de uma reportagem sobre o lixo no Brasil. Aquilo deixou ele curioso e ao chegar na cidade quis visitar o aterro sanitário local. Chegando lá, deu de cara com uma pilha gigante de PVC, plástico para ser reciclado. “Eu disse: Nossa! Aqui dá para ficar rico!”, lembra ele. Foi conversar com os catadores e voltou para casa com a cabeça cheia de projetos. Pelos seus cálculos, se todo aquele plástico fosse reciclado e injetado na fabricação de sandálias recicladas, seria um sucesso. Voltou para o Sul, pediu as contas e foi morar em Recife, de mala e cuia. Não conseguiu nada.

NAS TERRAS ROMEIRAS, TOCANDO EM FRENTE
Em uma de suas andanças pelo Nordeste, parou em Juazeiro. Um cliente veterano do ramo da borracha, estava passando por dificuldades com suas máquinas e queria voltar a produzir. Gilmar passou trinta dias consertando os aparelhos. No último, ao colocar a mochila nas costas e continuar suas viagens, o cliente pediu para ele ficar e tocar o negócio para frente de novo. A proposta era para ele ganhar 4% da comissão que produziu. “Acho que encontrei minha terra prometida”, refletiu Bender.
A empresa, Begam, era pequena, ficava no bairro Triângulo, era quase um fundo de quintal. Faziam dez pares de calçados por dia, mas sempre com meta de a cada mês dobrar a produção. Gerou seus 100 primeiros empregos e não parou mais. Sempre viajando, decidiu conhecer uma feira de calçados em Bolonha, Itália. Juazeiro ainda não era fabricante de calçados, eram fabricados apenas 5 mil calçados por dia na cidade, contudo a ideia foi fazer a I FETECC – Feira de Tecnologia e Calçados do Cariri. A meta era trazer fornecedores e empresários do setor do mundo inteiro para dar visibilidade a região, conquistar a confiança deles e mostrar organização e potencial.Venderam todos os equipamentos. A feira foi um sucesso.
A corrida somente começava. A cena é anos 2000. Gilmar decide erguer a Tecnolity. A ideia era uma loucura, ele queria produzir em alta escala. “Todo mundo me chamou de louco”, conta. A empresa foi apenas o primeiro salto para a cidade, agora se faziam 200 mil pares de sandálias por dia. Com os avanços, muitas outras empresas colocaram os holofotes na terra do Padim, o que despertou interesse e conflito. Era preciso agora buscar parceiros especializados em marcas, patentes e desenho industrial para dar suporte e atender a demanda das as marcas e dos modelos. A partir daí houve o verdadeiro crescimento e a disputa no mercado nacional. Juazeiro do Norte foi durante os anos 2000 e 2012, o maior reciclador de plásticos do Brasil, reciclando cerca de 700 toneladas de PVC.

NOVOS RUMOS, NOVAS IDEIAS
Gilmar segue com o lema de “inovar para crescer”, destaca. Fundou a Bendermix, que produz e abastece concreto para construções; a Pré-Moldados Santa Rosa, uma fabricante de pré-moldados, e pretende abrir uma construtora. O administrador nunca teve medo de crise. ” Pois da crise vem a inovação. A palavra chave fundamental é a inovação”, completa.
Bender tanto inovou que hoje é parceiro da empresa vinculada a marca Havaianas, a maior fabricante de sandálias do Brasil, a Alpargatas. Na época, a sua própria marca era a Super Leve, que crescia desenfreadamente, acenando olhares de outras empresas. Hoje todos os lançamentos da marca tem um quê do Cariri. A Tecnolity funciona 24 horas com revezamento de turnos entre os funcionários. Segundo ele, valorizar o funcionário para se obter um bom rendimento é essencial para a qualidade do trabalho. As máquinas são trocadas a cada quatro anos. Peças produzidas no Cariri circulam o país e o exterior, como é o exemplo da Alemanha, Espanha, França e Estados Unidos. A região já é considerada o maior produtor do Norte e Nordeste e o terceiro maior do Brasil, ficando atrás por Nova Hamburgo (RS) e Franca (SP), segundo o Sindicato das Indústrias de Calçados e Vestuário de Juazeiro do Norte e Região (Sindindústria).
Em meio a tantos papeis e metas, Gilmar ainda é pai e marido. O tempo com a família é um refúgio, assim como um tempo para si. O empresário é apaixonado por motocicleta e sempre que pode dá um passeio sobre duas rodas. A história do mercado no Cariri tem um pouco da história de Bender, o êxito dos negócios são gratificantes, poder dizer que chegou até aqui é realização pessoal sem tamanho. Ele acredita na potencialidade local e colhe o que plantou. Por Juazeiro, por ele.

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