Cariri

Quem sabe amanhã não somos nós?

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O Museu de Geociências da Universidade de São Paulo guarda um pedaço do Cariri desenhada pelo tempo nas rochas. Como fotografias, fósseis da Chapada do Araripe, contam a história do passado, presente e futuro

Texto e foto Ribamar Junior

Rosi Kariri, monitora do Museu de Geociências do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP) e graduanda do curso de Geociências, está apressada para uma reunião às 16h30min. Subindo e descendo escadas, ela apresenta um pouco do trabalho que acompanha na preservação do acervo e o processo de coleta dos materiais estudados.

Indígena da tribo Kariri, Rosi é natural de São Benedito, na região de Serra Grande. A cacica da tribo é Andrea Kariri, e Rosi antes de falar qualquer coisa sobre a família, pede para consultar a liderança. “A gente veio para cá como qualquer outro imigrante nordestino, de poucas perspectivas de estudo e trabalho”, fala sentada em uma das cadeiras do Museu sobre a vinda para São Paulo.

Ela conta que há um movimento indígena na USP que integra uma série de indígenas de várias tribos, como por exemplo, os tupinambás, alguns do Amazonas e até de outros países. Dentro da Universidade há o Levante Indígena da USP, no qual a Rosi faz parte. O grupo faz um trabalho de acolhimento e recepção. “Eles já eram ativistas antes disso, e agora fazem pós-graduação e graduação, temos colegas da História, Letras e outros cursos”, fala Rosi.

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Rosi kariri

A índia foi na região do Cariri em 2006 e 2009, visitou a tribo de Poço Dantas. Para ela, as coisas vão mudando em relação ao protagonismo feminino dentro das tribos. O que antes era demanda por papéis considerados masculinos e femininos, hoje dentro da tribo, há grupos de organização de jovens e lideranças femininas. Segurando um Peixe do Araripe 2, original na pedra, ela mostra réplicas de fósseis e diz antes de tirar a fotografia: “Segura seu conterrâneo”.

A estudante Gabriela Araújo, 20, do 3º período do curso de Licenciatura em Geociência e Educação Ambiental mostra como são feitas as réplicas dos fósseis. É um trabalho feito por meio da oficina de réplicas, são como cópias maleáveis xerocadas de livros. São materiais capazes de transmitir de forma tátil sem causar dano ao fóssil original, revestidas de silicone de alta precisão, apresenta detalhes produzidos pela resina, colorida e envernizadas.

Durante um passeio pelo museu é possível ouvir sobre o fóssil e ao mesmo tempo tatear um pouco do que a história conta através das réplicas. O geólogo responsável pelo setor educativo e preservação e acervo é o Edvaldo Souza Costa, ele explica que o museu começou como laboratório didático e continua até hoje, possuindo mais de 5000 amostras expostas com doações de coleções pessoais em processo de inventário, com aproximadamente 15 mil amostras.

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Acervo original

O espaço começou com do antigo Museu de Mineralogia do Departamento de Mineralogia e Petrologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), em 1934 da recém-criada Universidade de São Paulo, por meio do prof. Onorato. O acervo conta que uma vasta pesquisa nacional, de várias regiões do Brasil e das amostras do mundo todo. São minerais, gemas, rochas, meteoritos e espeleotemas que vão sendo numeradas e cuidadosamente catalogadas para exposição.

“Por ser um espaço cientifico, eu tenho a necessidade de não atender apenas as pessoas que conhecem, é um museu, é bonito, é aberto ao público. Mas muito do público vem na intenção de ver determinada amostra. Para os mineralistas do mundo, criou-se então uma linguagem de exposição, então os minerais e as rochas são separados e classificados ionicamente”, explica o geólogo.

Geólogo Edvaldo Souza

Geólogo Edvaldo Souza

Antes, não era possível dar aula no curso de História Natural, agora de Geociências, sem ter uma amostra em mãos, agora muitas delas são doadas e os alunos podem conhecer de perto o que é dito nos livros. “Então todo mineral tem uma fórmula química própria natural, e essa fórmula química é determinada para a nomenclatura do íons. Do 1 até o 74, então se você caminhar você vai vendo os elementos químicos nas etiquetas se tornando mais complexos até chegar na família maior”. Destaca-se entre as conquistas a compra de 56 amostras de minerais raros vindos da Groënlândia, Tadjikistão, Índia, Kazakistão, Kirgízia, Rússia e da China.

Rosi considera a pesquisa do museu um marco na história. Ao terminar a conversa rápida, ela questiona se amanhã não seremos nós dentro da pedra.

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