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Sem vela ou candeeiro, na casa de taipa de Eva tem energia solar

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Com quase mil reais, no ano de 2004, Eva comprou uma placa solar, bateria automotiva e uma televisão para sua casa azul de taipa do Sítio Minguiriba, zona rural de Crato. Agricultora e devota de São Francisco, ela conta que com a energia solar assiste a missa, a novena do Pai Eterno e até o jornal 

Texto e foto Ribamar Junior 

Esquentando a goela com sequilhos e café recém coado no pano, Eva senta na mesa de jantar após retirar os pratos do almoço e conta como ilumina as noites na sua casa azul de taipa no Sítio Minguiriba, zona rural da cidade de Crato. Já passa do meio dia quando parte da família, sobrinhos e irmãos, almoçam sob o teto baixo ouvindo a canção Asa Branca de Luiz Gonzaga. Lá fora, as crianças correm e andam de bicicleta enferrujada. Pouco antes da agricultora e devota de São Francisco começar a contar como consegue utilizar energia solar, troveja.

Eva saiu do Crato no dia 28 de dezembro de 2004. Ainda não havia eletricidade na sítio e matar a sede com água limpa ainda parecia ser um sonho distante. Era virada de ano, e a família entrou em 2005 já no estado do Piauí, na serra do irmão. Ele mora lá há trinta anos, foi embora com a esposa e vive de agricultura, planta caju, feijão e mandioca. Na Minguiriba, os 55 anos de Eva ainda permite que ela cuide da mãe, que recentemente completou 89 anos e não anda por problemas motores, e da pequena roça, onde tira o sustento do mês.

Quando a família voltou há 11 anos, o irmão trouxe do Piauí uma ideia para clarear a vida da família. Conectar uma bateria automotiva e uma placa solar para a mãe assistir televisão. A energia só iria chegar no ano seguinte e no estado piauiense era comum o uso de pequenas placas de energia solar. A mãe de Eva deu mil reais e pagou os três produtos. Luz chegou no sítio em 2007, quando com pouco mais de um ano a família usava pouco vela e candeeiro. O método é simples: a placa absorve a energia, passa para a bateria e a bateria encaminha para os eletrodomésticos conectados no fio. A bateria só foi trocada uma única vez.

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“Ah se fosse tudo na placa era bom, aí na época de nevoada ela arreia, puxava muito”, conta Eva batendo os dedos na mesa coberta por um pano floral e protegida por plástico. “Não tinha energia nesse tempo, desde quando morava aqui, demorou a chegar e ela inventou de comprar a televisão às custas do sol, o cabra assiste as coisas e fica no claro da noite, uma delícia, clareia melhor do que a energia elétrica”, aponta nos dedos a programação de entretenimento diária, a missa, a novena do pai eterno e quando quer, o jornal.

A placa fica no teto da cozinha, próximo a porta que leva ao quintal. Há lâmpadas em quase todos os cômodos, no banheiro, no quarto, na cozinha e sala de jantar, falta uma só na sala de estar. Troveja mais um vez durante a conversa. Na localidade, quem não tem luz solar, usa vela quando falta energia. A conta da energia no mês de abril veio cara, de acordo com Eva, 41 reais e uns quebrados. “Seria bom se tudo fosse ligado na placa”, lamenta ela dizendo que só funciona na energia solar algumas lâmpadas, a televisão e o som, mas esse último, ela só liga às vezes.

Atualmente, na casa de teto baixo mora só Eva e a mãe. Eva ainda chegou a ser casada, em 2004, mas abandonou o casamento com ajuda da mãe, sofria maus tratos e violência doméstica do falecido marido, que nunca foi penalizado pelo justiça. A violência fez com Eva tomasse remédios tarja preta por um tempo, mas hoje esqueceu a história. Sumiu da cabeça, como ela queria. Não teve família, diz ela, era desejo de Deus ser assim. Hoje se diz feliz. Desde 2001, veste todo santo dia as vestimentas de São Francisco, devido a uma promessa. “Eu tinha uma úlcera que doutor nenhum deu jeito, mas São Francisco deu”, fala pegando no tecido marrom cobrindo do pescoço aos pés e com o detalhe de uma corda amarrada na cintura. Eva não tira a roupa nem para dormir.

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Era domingo, o céu estava bonito para chover. Dia de família, casa cheia. A rotina das duas é simples, iluminadas pela energia solar e pelas preces de São Francisco, a prima Totonha ajuda nos cuidados com a mãe. São três mulheres, dando aos mãos umas as outras.  Eva tem ao lado da mãe, como Virginia Woolf escreveu, um teto todo seu. Quando vai deitar, apaga as luzes e pronto, a energia só funciona no outro dia. Troveja, Eva sorrir tímida e fecha a janela de madeira.

 

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